Os Nossos Pintores

Amadeo de Souza-Cardoso – “A luz de Manhufe – elemento distintivo dos quadros de Amadeo”

“(…)

Quero ir aos museus pelos passos meus
Ao Antigo ao Moderno até ao céu
Contemporâneo extemporâneo Amadeo
O Extravagante de Amarante não morreu

(…)

Vamos lá todos ao museu ouvir a cor
Tocar o cheiro ler a tinta ser amor
Talvez assim um Amadeo ressuscitado
Nos pinte um século mais presente que o passado


Quero ir à exposição à extradição
Pedir desculpa ao Amadeo e porque não?
Dizer-lhe que hoje o que na escola mais se ensina
É como não consumir droga nem propina

Está na hora, Amadeo. Mas antes de ir
E como sei que eras danado para rir
Quando voltar vou trazer-te uma moldura
Com o retrato do país e da Cultura…”

(Fernando Tordo, Amadeu, 1997)

Amadeo de Souza-Cardoso em Manhufe.
Fonte: Espólio Amadeo de Souza-Cardoso da coleção da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian.

Somos embalados por estas palavras musicalizadas que nos convidam a conhecer o pintor modernista Amadeo de Souza-Cardoso e as suas obras, símbolo de várias vertentes artísticas, tal como o próprio artista afirmou: “Eu não sigo escola alguma, as escolas morreram, nós, os novos só procuramos a originalidade, sou impressionista, cubista, futurista, abstracionista, de tudo um pouco…”[1]

Amadeu Ferreira de Sousa Cardoso nasceu a 14 de novembro de 1887, em Manhufe, na paróquia de Mancelos, concelho de Amarante, sendo um dos treze filhos do casal José Emygdio de Sousa Cardoso e de Emília Cândida Ferreira Cardoso (Damásio, 2018). No seio de uma família abastada de proprietários rurais, o pequeno Amadeo cresceu rodeado dos seus pais, irmãos, tios e primos que desde sempre reconheceram o seu lado artístico e rebelde.

Seria em Manhufe, local onde se localiza a casa de família, que Amadeo desenvolveria a sua personalidade e a sua rede de afetos. A este recanto sagrado regressaria sempre, mesmo durante as temporadas que viveu em Paris, como uma necessidade ardente de sentir a sua família e de buscar inspiração para os seus quadros. Manhufe revelar-se-ia o casulo mais bem preservado para pintor amarantino, sendo o catalisador emocional, afetivo, cultural e artístico para a produção de uma parte significativa da sua obra.

A experiência de visitar e sentir o epicentro afetivo e artístico de um dos grandes pintores modernistas do século XX, marca qualquer viajante que nutra interesse pela alma dos lugares. Este é um local que não nos deixa indiferentes e desperta em nós um sentimento de redescoberta das nossas raízes familiares e afetivas, permitindo um contacto mais íntimo com a natureza tão característica e quase intacta deste cenário.

Percorrermos as imediações da Casa de Manhufe e imergimos nos quadros de Amadeo de forma natural e reveladora dos cinco sentidos, compreendemos um pouco melhor a luz dos vários cenários que o pintor transportou para as suas telas de modo tão criativo e irreverente. Vivemos o pulsar dos campos e dos caminhos estreitos e serpenteados entre as várias edificações que compõem a Quinta de Manhufe. Um território que terá sido calcorreado pelo nosso pintor-anfitrião, para aí encontrar a sua inspiração e representá-la através de várias temáticas como a “do campo e da montanha, da caça ou dos motivos populares, mantendo uma forte relação com a tradição dos ambientes que frequentou durante os primeiros anos de vida.” (Andrade, 2016, p. 24)

A Casa de Manhufe.
Óleo s/madeira. C. 1913.
Fonte: Coleção particular. Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso.

Com 19 anos (1906), Amadeo parte para Paris, desembarcando “no Quai d’Orsay, na margem do Sena, onde tinha à sua espera o conterrâneo Acácio Lino que lhe deu boas vindas e arranjou alojamento (…)” (Damásio, 2018, p.217). Na cidade das luzes, o jovem amarantino chegou com o intuito de estudar arquitetura, mas seria na capital francesa que tomaria a decisão de prosseguir a atividade de desenhador e caricaturista, capacidades essas que, desde muito pequeno, demonstrou apetência.

É na Casa de Manhufe que encontramos “as primeiras obras, que uma tradição doméstica alega terem nascido quando Amadeo contava apenas nove anos. São dois Pierrots, irmãos dos Leal da Câmara, um deles abraçado a enorme lata de biscoitos, o outro equilibrado numa banqueta, a tentar martelar no teclado de um piano.” (Cláudio, 2008, p. 14).

Estas caricaturas inserem-se no conjunto de primeiros desenhos do pintor modernista, seriam estas linhas que o acompanhariam ao longo da sua carreira, a par de outras correntes artísticas (expressionismo, abstracionismo, cubismo, futurismo) que explorou e desenvolveu pelos ateliers franceses junto de outros artistas como Eduardo Viana, Amedeo Modigliani, Robert e Sonia Delaunay, Walter Pach, entre outros.

Contudo, mesmo estando em contacto com todo o dinamismo cultural e intelectual vivido à época em França e, em outros países europeus, Amadeo sentia uma saudade constante da sua casa-mãe, Manhufe.

E no centro da vida a Casa se plantava, com todas as ventanas escancaradas para a rosa-dos-ventos, de salas preenchidas por mesas quadrangulares donde as enormes toalhas jamais se retiravam, de oratórios de vinhático em cujo interior uma lamparina eterna sustentava uma chama azul e amarela, minusculamente pulsando.” (Cláudio, 2008, p. 11)

A luz, as cores e atmosfera de Manhufe diferenciam os quadros de Amadeo dos restantes artistas que seguiram linhas artísticas comuns, atribuem-lhe singularidade e uma emoção excecional.

Tal como o artista Amadeo, todos nós procuramos sempre um local que nos faça sentir em casa, um espaço onde os nossos sentidos estão ativos e nos conecte com a nossa(s) memória(s). Somos feitos de emoções e de paisagens… Como o pintor afirmou: “A arte é um produto emotivo da Natureza.”[2] 


Ao percorrer a @Rota dos Artistas, partilhe connosco as suas reflexões e fotografias. 

Siga-nos no Instagram e no Facebook

Use #rotadosartistas ou marque @rotadosartistas para acompanharmos a sua viagem!

Andrade, I. (2016). A Casa Sonhada. Memórias Sobrepostas: um Pintor e uma Arquiteta. Porto: Edições João Sá da Costa.

Cláudio, M. (2008). Amadeo. LeYa, SA.

Damásio, L. (2018). Amadeo, Vida e Arte. Volume I. Município de Amarante.


Sofia Mesquita,

Stay to Talk Instituto de Imersão Cultural